E faltam poucas horas pro que antes era a prisão. E qualquer um pensa que escreverei sobre “o que era prisão hoje se transmuta em liberdade, belo clichê”. Obrigado. Posso não ter razão e, ao que me consta, a razão é uma das coisas que mais me frustraram na espera da felicidade, da antagonia do saber, da discórdia do ter certeza.

O silêncio que soa só ali na esquina é muito diferente do que busco solidariamente aceitar. É uma busca íntima da realização que nunca se concretizou. Mas é o que nos resta como conceito de felicidade pra quem só precisa ouvir de um grande amigo qualquer: você está fazendo a coisa certa.

E continuarei assumindo minha total falta de verossimilhança e singularidade com a realidade para poder me utilizar de orações tão longas e tão distantes da realidade do que passo. Mas a realidade está aqui, do meu lado, pedindo um grande favor a mim: não deixe de me retratar assim como mereço. E a resposta vem em cada palavra escrita ou apagada na forma de frustração. Palavra, sentimento ou discórdia, vocês foram feitos uns para os outros. Eu estou por fora, como se não tivesse nada com isso.

A temporada final do arrependimento vem quando não sabemos mais o que é fim, o que é começo. É continuar sentindo as dores do barulho que vêm da minha mesma janela de frente, onde tudo era mais bonito, fosse fogo ou explosão, e que um despertador de perto desperta em seu ouvido a cada minuto. É continuar sabendo que esse despertar virá acompanhado sempre de muita decepção. A claridade que assombra meus olhos sabe do que digo: vocês não sabem o barulho que fazem, não sabem o quanto as máquinas trabalham pra colocar mais gente em agonia aqui por perto.

A agonia é o que nos falta e até o que nos sobra depois de tanto chiado mudo criado pra nos pertubar. Daqui uns bons meses, após tanta coisa guardada, surgirá mais um grito coberto de razão e estancado pelo medo de parecer errado. Fale o que quiser, mas o mal do século é saber que muitos anos ainda virão.

O quarto já não é mais o mesmo. É outro, e de outro já virou outro.

A janela é muito pequena pra tanto objeto que gostaria de ser jogado por ali. É provável que muito mais pra, pela primeira vez na vida, usar a palavra defenestrar.

Do alto do céu tudo é uma união de tanto barulho que não dá pra se escutar nada.

Silêncio, por favor, que eu quero cantar.

Quem precisa de ritos de passagem quando a passagem da janela pro mundo exterior é muito mais atraente?  Mas ir lá pra fora, se aqui de dentro tudo de lá já me incomoda?

Esse silêncio metálico e cheio de carbono de vocês, que cortam as frestas de minha janela com o reflexo impiedoso e ardido do sol, mesmo quando parece que ele não está nem aí pra mim, é mais que silêncio: não é.

Eu, só, quero te ouvir, silêncio…

Como é difícil escrever algo que fuja de todos os clichês com os quais nos acostumamos. Afinal, os clichês só são tão importantes e presentes em nossas vidas pelo simples fato de terem sido uma grande novidade  em certo momento pra nós, até então ingênuos e ignorantes (sempre nos vemos ignorantes quando olhamos pra trás).

Ignorância essa que pode ser traduzida fielmente em pureza. E em cada frase, palavra, letra ou som ,  nos traduzimos em ferramentas limitadas perto do que sentimos dia após dia, som após som.

Nada vai mudar o meu mundo, repetindo o que já foi muito bem dito por uma banda qualquer. Aliás, essa banda qualquer vai ser sempre a minha referência do que sobrou de novidades. É muito difícil encontrar novidades quando há contas a pagar, quando há responsabilidades implicitamente escancaradas em nosso subconsciente.

Alguém além de mim já notou o quanto custa caro, praticamente de graça (o de graça quase sempre é o mais caro no fim das contas) escrever e produzir quando se está bem? Mas esse é o ponto de chegada de todos os artistas (mesmo eu não fazendo parte desse grupo): escrever enquanto se atinge o ponto em que não se consiga mais escrever.

E, aos poucos, colocando vírgula onde não se deve, e traindo a própria caneta (mesmo nunca ter usado uma) construindo uma vida ao invés de construir uma trajetória de sucesso. Sucesso que advém de sucessivos fracassos. Sucesso que daqui uns dias ou décadas será negado ou esquecido, pelo simples fato do dono do mesmo, então, se ver feliz.

E nessa estrada que, ao contrário do que muitos dizem, só tem uma saída. Não há caminho das pedras ou das flores.  Pedras nunca foram mais bonitas que flores. Depende da pedra, depende da flor. Existe o que você quiser. Existe se você quiser.

Pois tudo se consolida a partir do momento em que escolhemos o que colocamos como plano de fundo da nossa realidade. Essa é a realidade: o que nos choca, o que nos faz chorar e rir, de um minuto para o outro. Essa subjetividade do que não há o que se discutir, esse gasto e estrago iminentes que passamos num despertar, numa falta de dormir, ou numa falta do que sonhar, é a realidade. A realidade é o que vamos viver assim que fecharmos uma janela…

…assim que fecharmos um contrato com nossa consciência: o que está por vir só depende do que levarmos a sério. Essa é a minha realidade.

O resto são pedras, o resto são flores.

O resto, o resto, é pura ressaca e poesia.

90% das músicas que sei de cor são de 5 anos pra trás. Estaria eu perdendo minha capacidade de memorizar as coisas? Pode ser que sim, mas nem tanto. Esse tempo coincide com a chegada da internet banda larga em minha casa. Andei pensando: éramos mais felizes quando não havia banda larga.

No início de tudo, 3 ou 4 pessoas na sala de aula tinham computador em casa. Lembro muito bem quando chegou um “486″ em casa, com Windows 95 (meu deus, tinha papel de parede e tudo). Que beleza. Não precisava mais ir até o escritório do meu pai pra mendigar um tempinho pra jogar Jill, Wacky e Doom. Na época, era um dos melhores computadores da cidade (disse o meu vendedor).

este não era meu pc é um pc qualquer

Quando nem internet eu tinha – isso em 1998, acho – eu ia pra casa de alguns amigos (sempre fui interesseiro, só tinha amigos que tinham Super Nintendo, posteriormente, PlayStation, ou que tinham computador e, posteriormente, Internet. Me processem) o ápice da descontração era entrar no chat UOL, entrar com o nick D@nilo na sala de 12 a 17 anos e mandar ver. Era 2 horas pra abrir a página (não que minha internet a rádio se diferencie muito disso, mas enfim) e mais uns 5 minutos até digitar um “Oi e quer tc?”. Mas alguma coisa acontecia no meu coração. Aquela soma de gastar telefone (pulso)+casa dos outros+tempo escasso era incrível. Quem não passou por isso, perdeu uma bela parte da Internet. Eu até fazia trabalho só com quem tinha Internet, arrumava um pretexto pra conectar e pesquisar algo no Cadê. E parava no Chat Uol. Era batata.

Mas nem era isso que eu queria dizer. Queria me referir a quando realmente chegou a tal da Internet até minha casa. Assínávamos internet ILIMITADA (até então havia planos de limites, por exemplo: por 50 horas mensais, o provedor custava R$25,00/mês. Ilimitado, subia pra R$35,00). Um luxo só. Assinamos um dos dois provedores que haviam na cidade, porque ouvi falar que aquele caía menos.

Conectávamos, geralmente, no clássico horário: dias de semana após 0h e no fim de semana após sábado 14h. Claro que dávamos umas boas fugidas durante outros horários, o que aumentava bastante a conta telefônica, com a qual nos defendíamos sempre com o argumento de que mesmo gastando só um pulso, muitas vezes a conexão caía e tínhamos que reconectar. Mentira. Não que não caísse. Alías, caía muito. Mas nem seria o suficiente pra subir uma conta de R$60,00 para R$100,00 em um mês. Fizemos e-mail bol e tudo. O meu era dan-mail@bol.com.br

Sexta-feira, por não haver aula cedo no sábado, quando dava 22h, o coração já acelerava. Mal via a hora de entrar no ICQ e me enturmar com a galerinha antenada da minha sala. Fora que eu podia dar um search por “sexo feminino em Caldas Novas online no ICQ” e ir garimpando minhas pérolas. Dava 1 da manhã mas não dava meia noite. Até que chegava a hora. Aquele barulho de discagem (que posteriormente aprendi a abaixar o volume para ninguém me ouvir conectando em horas inapropriadas) soava como um anjo tocando harpa enquanto você entrava no céu.

Conectado. Um ícone no canto da tela indicava isso e me remete a grandes emoções. Praticamente eu esquecia o que tanto queria ver e ficava lembrando durante o dia inteiro. Nem sabia o que fazer com tantos caminhos. Entrava no Bol: mensagem nova, coração acelerado. Humortadela: meu deus, como eu ria do Humortadela [/vergonha]. Sites hacker: Normalmente com seções “humor”, “dicas hacker”, “como invadir um babaca”, “lammer”, “programas (Winzip, Icq, programas pra abrir o drive de cd alheio) úteis” e até uma página que mostrava o seu HD e dizia: “cuidado, eu sei tudo que passa no seu computador MUA HA HA HA!”. Sim, eu morria de medo. Entrem na justiça contra mim. Vocês também teriam medo.

O ICQ. Como o ICQ era legal. A cada letra que você digitava, soava um barulho de máquina de escrever, o que te deixava cada vez mais viciado em digitar, só pra ficar em rápido e ter o prazer de sentir cada batida da máquina. Quando qualquer mensagem chegava, era um som tipo “Oh Ou…”. Nessa época, a turma dos favorecidos digitais já ia pra umas 10 pessoas, entre 45. Ficávamos mais amigos, e adorávamos criar piadas internas pra contar na frente dos trouxas que não tinham computador. Uma ostentação só pra quem podia, claro.

Chegaram as tais gravadoras de CD. “Nossa, agora dá pra juntar em um cd só as músicas que você quer!”. Não acreditei. E tive que engolir isso. Meu colega comprou uma, por mais ou menos R$400,00. Gravava em 4X. Lindo. Ele deve ter lucrado um bom dinheiro, pois todo mundo pagava R$15,00, R$20,00 pra ter um cd chamado “Seleção Fulano”. Faziam-se as listas com as músicas, o sujeito entrava no Napster e, depois de 15 dias, se ele fosse esperto, entregava o cd pra você. Aquilo parecia coisa de outro mundo, e talvez fosse. Quem tinha 1000 músicas no computador era considerado um Deus.

O ICQ foi dando espaço ao IRC. Um progama sem quaisquer inovações visuais (pelo contrário), difícil de se entender, cheio de comandos difíceis de se aprenderem. Mas era um pitel. Pelo Scoop Script, ou pelo AvAlAnChE você acessava canais. Eu vivia no #uberlandia, #engenheiros, #anormais e no #caldas (no seu record, deu 350 pessoas ao mesmo tempo). Você tinha cargo de operador (tipo um dono de comunidade), de voice (moderador) e usuários comuns (se fode aí, trouxa). Você registrava um nick pra ninguém poder usar, e se deleitava pra conversar no meio de chats simultâneos, ou privativos. Tinham jogos, canais só para downloads. Praticamente um prévia do que o Orkut, 7 anos após auge do mIRC.

De lá pra cá, surgiram MSN, Orkut e MySpace, dentre outras ferramentas. A Internet agora, se antes dividia o espaço com outras coisas que você fazia no computador, agora não mais possibilita isso. Quem consegue ligar o computador para digitar um texto, jogar alguma coisa, ler algo em algum site, sem abrir o MSN, mesmo que seja “só pra ver quem tá online”? Quem, durante esse texto, não foi ver se seu orkut tem alguma novidade?

Posso afirmar que a Internet perdeu o seu glamour inicial. E acontece com todas as coisas: quanto menos limitada, quanto mais democrática, menos glamour tem. Na comunidade Discografias há a incrível possibilidade de se acharem álbuns completos de quase todos os artistas dem quem já tive notícia no mundo. Em 10 minutos se baixa até mais de um álbum. Não dá tempo de escutá-lo pois, na metade, já chegou outro. Pra quê vou assistir um episódio do meu seriado favorito por semana, se posso baixar e assistir tudo de uma vez no computador?

Jogamos, lemos, passeamos, muito menos que antes. Pode até parecer um saudosismo idiota, mas ouvíamos muito mais músicas com muito mais atenção quando demorávamos uma semana pra baixar a coletânea preferida, do que hoje. Era muito mais divertido receber carta de um amigo distante do que vê-lo diariamente no MSN e raramente falar com ele, por uma suposta falta de assunto.

Claro que toda melhora tecnológica e de acessibilidade é bem-vinda. Mas, como qualquer outra coisa, isso traz também a tentação de cairmos numa suposta diversão eterna, que posteriormente vai virar mesmice. É a tal da democratização do acesso sem que antes tenha havido uma conscientização sobre o bom uso da coisa. Você pode pensar: “mas eu fiz muitos amigos pelo Orkut e MSN”. Sim, mas talvez isso tenha te deixado mais exigente (talvez enjoado) ou utópico em relação a amizades do mundo “real”, que podia ter feito ao praticar um esporte ou saindo com outras pessoas.

Estou pensando seriamente em colocar de volta uma conexão discada aqui. Mesmo que isso soe como um discurso de adulto que não entende nada disso (que assiste Jornal Hoje e fica preocupado com o filho porque “há denúncias de pedofilia em sites de relacionamentos como Orkut” – haha – mas quem sabe estamos precisando de um meio-termo nisso aí. Quem sabe seja a hora de nós começarmos a impor nossos próprios limites.

E fico por aqui porque tenho que olhar meu Orkut.

do alto do céu tudo é mais bonito
as luzes são lindas, sejam fogo ou explosão

e diante do ar que esconde a paisagem
nada se verá em dia de frio
senão as mesmas luzes que não queimam meu corpo
nem aquecem meu frio

peço mais uma dose que eu mesmo trago
trago um cigarro que eu mesmo apago
e sinto o calor de uma vida sem vida
e a cabeça vazia

do céu do meu alto, de doses sem fim
o filme é outro, só não muda o ator

e deste cenário que arregimento
só vejo o temor de saber que amanhã
se em mim só existe o arrependimento
pra que me preocupar?

não me leve a sério, não perca seu tempo
me leve pra onde eu tenha talento
ou pra algum lugar onde todos são vis
assim me dou bem

do alto do céu tudo é mais distante
do alto do céu tudo é mais silêncio.

[download mp3]

Abriu os olhos com a sensação de dever não cumprido. O sonho estava tão bom, que tentou fechar os olhos na ilusão de continuá-lo, tentando fingir pra si mesmo ou pro moço da sala de projeção de sua cabeça que nem acordou. Em vão. Se é ruim deixar um filme pela metade, quão angustiante é deixar um tanto de sonhos por terra enquanto dorme.

 Pra onde vão os roteiros de filmes que passam até metade? Quem os escreveu? Qual foi o problema? Falta de continuidade? Os atores entram em greve? Não, os atores não são o problema, afinal, muitos deles reaparecem nas próximas exibições, muitas vezes, com papéis menos expressivos. Se fosse pela falta de verossimilhaça ao menos…

Ah, verossimilhança é o que mais falta em sua vida. Se a vida é um livro, conhece mais seus críticos do que a obra em si. A falta de continuidade se expressa nessas linhas assim como em seus dias. Nem sempre é possível contar os dias como uma conta exata. Em muitas vezes um dia é feito de 24 meses. Em outras, dura 24 segundos. Como se todas as mesmas coisas interminadas da vida voltassem a se manifestar por meio de gestos pequenos do destino. Uma frustração ali, um sorriso aqui. Um deja-vu inédito por instantes.

E já que desistiu de definir o próprio futuro, esse deja-vu lhe dá uma boa sensação de que é possível prever o futuro, pelo menos por segundos. Talvez fosse uma boa hora para o moço da sala de projeção pausar o filme.

Queria eu ter a capacidade de mentir pros outros como minto pra mim mesmo. Se mentir é pecado, mentir pra si mesmo é o perdão. O que parece é que a esquizofrenia se instala de uma forma tão milimetricamente calculada que passa a ser a única verdade e a única forma de constância em mim.

O egocentrismo e uma tamanha ingenuidade fazem com que me sinta livre. Liberdade essa que nunca trouxe futuro. Liberdade essa que tem outro nome: solidão. Achar que, caso dê errado, ao menos terei a sensação de que tracei meus rumos eu mesmo – a esmo – foi minha armadilha. Fazer tudo do meu jeito me deixou orgulhoso (e sozinho). Orgulhoso (e triste). Orgulhoso (ridiculamente orgulhoso). Orgulho esse que vem com a pergunta: e daí?

Não serei eu o dono do dilúvio que vai me fazer descansar, mas, se chorar tira minhas energias e me adormece, dando uma trégua para um novo dia que vai começar, então é tudo que tenho pro momento. Se tudo que já me fez sorrir um dia hoje se disfarça pra eu não enxergar, só me basta esperar o que pode aparecer. Não há como correr atrás de uma própria felicidade, se ela ainda não existe. Me deixem mal aqui, isso me faz bem agora.

Há tantos que não têm tempo pra dormir. O pior é não ter sono pro seu tempo. A cabeça estafada de tanta informação cruzada, um curto circuito sonoro e permanente. Quando se vê, já está balançando as pernas sob a mesa, talvez numa tentativa subconsciente de se cansar lentamente e apagar no primeiro momento que pisar num quarto frio, escuro e inseguro.

E assim se vai mais meia hora de meu tempo. Agora, é cuidar das outras dez.

Queria eu ter a capacidade de mentir pros outros como minto pra mim mesmo. Se mentir é pecado, mentir pra si mesmo é o perdão. O que parece é que a esquizofrenia se instala de uma forma tão milimetricamente calculada que passa a ser a única verdade e a única forma de constância em mim.

O egocentrismo e uma tamanha ingenuidade fazem com que me sinta livre. Liberdade essa que nunca trouxe futuro. Liberdade essa que tem outro nome: solidão. Achar que, caso dê errado, ao menos terei a sensação de que tracei meus rumos eu mesmo – a esmo – foi minha armadilha. Fazer tudo do meu jeito me deixou orgulhoso (e sozinho). Orgulhoso (e triste). Orgulhoso (ridiculamente orgulhoso). Orgulho esse que vem com a pergunta: e daí?

Não serei eu o dono do dilúvio que vai me fazer descansar, mas, se chorar tira minhas energias e me adormece, dando uma trégua para um novo dia que vai começar, então é tudo que tenho pro momento. Se tudo que já me fez sorrir um dia hoje se disfarça pra eu não enxergar, só me basta esperar o que pode aparecer. Não há como correr atrás de uma própria felicidade, se ela ainda não existe. Me deixem mal aqui, isso me faz bem agora.

Há tantos que não têm tempo pra dormir. O pior é não ter sono pro seu tempo. A cabeça estafada de tanta informação cruzada, um curto circuito sonoro e permanente. Quando se vê, já está balançando as pernas sob a mesa, talvez numa tentativa subconsciente de se cansar lentamente e apagar no primeiro momento que pisar num quarto frio, escuro e inseguro.

E assim se vai mais meia hora de meu tempo. Agora, é cuidar das outras dez.

E tudo se revela irrelevante. A clareira do tempo se apaga e os riscos que ficaram daquilo que costumávamos chamar de vida se confundem. E quando falta luz, só o que brilha pode ser visto.

Ninguém precisa de meio-termo, meias palavras, duplo sentido. O nada sempre agrada mais. Sofre menos, mostra mais.

O amor pela metade é pior que tudo, pior que o nada. A liberdade com a qual tanto nos iludimos fazendo contas inexatas de cabeça pra saber quando a teremos, sempre machucará. Afinal, seremos quase livres. Hora de arrumar uma prisão pra nos aquecer.

E assim o nada se apresenta, com toda a pompa e circunstância que merece: em silêncio, breve e com a devida leveza: o nada é aquilo que mais precisamos no momento em que tudo já não faz mais sentido.

O texto começa como se já estivesse pela metade. E o dia começa como se já tivesse acabado. Aliás, como se já não existisse. Como se, me perdoe pelo clichê, eu já não soubesse mais qual a minha função no mundo. Como se o mundo não tivesse sido feito pra mim.

Viver, só pra se arrepender. Ando só, pois só eu sei pra onde ir, por onde andei. Ando, só nem sei por que. Ser um pouco infeliz faz parte do ar que temos que inspirar. A morte – ah, essa – a morte vira só um detalhe ou uma parte do que vemos ou entendemos sobre um dia perfeito. Como se a solidão te convidasse para um jantar. Na mesa, só vinho tinto (espalhado em seu forro) e, para beber, nada mais que o suficiente para passar goela abaixo tudo que me é oferecido. Comida rápida, comida pronta. Já mastigada e digerida.

E o texto, aqui, continua como se estivesse mesmo continuando, afinal, não há nada mais simples que o meio, não é mesmo? Se o fim justifica ou não os meios, não sei. Fim-gi-lo: levar até a última sobrevida do assunto – principalmente quando ele simplesmente não existe – para que o meio se pareça com uma brincadeira de mau gosto, assim como a vida.

Vivendo e aprendendo que não se aprende nada, que não se aplica nada, ao menos daquilo que se configura relevante para o simples detalhe de existir. Pode-se até ousar existir e ser notado. O sonhos estão todos prontos pra qualquer um. Quanto mais qualquer, melhor: é só pegar.

E eis que fica a certeza imprecisa de que gostamos mesmo é do rombo: a visão de que nos fortalecemos com as derrotas, frustrações e quaisquer outras traduções para a infelicidade é o que nos faz viver. É a pobreza de espírito que nos trará todo o consequente crescimento. É o nosso crescimento: saber que independente do que vier, já passamos por coisas piores ilesos. É piorar pra melhorar. Se deixar embrutecer por não acreditar mais nos seus próprios ideais.

E chego ao fim como se fosse começo: o assunto morre aqui.